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A esperança trata de sonhos, por Lurdinha Henriques

  • Seg, 29 de Maio de 2017 14:48
  • Mas estes precisam ser construídos com trabalho sério na vida real.

    É muito difícil falar sobre partido político no Brasil de hoje. E não à toa. Há um clima completamente negativo em tudo que toca à política. Desconfiança e descrença completamente justificáveis. Mas, nós, que vivemos a política e sabemos que ela não é só o que sai na imprensa ou o que as pessoas introjetaram como verdades, mesmo que baseadas em fatos concretos, temos certeza de que há muito a discutir e a construir. Mas é preciso disposição. Que nos escapa nos tempos atuais.

    Há algumas coisas sobre as quais deveríamos refletir. Uma delas é que a política está envolta em excesso de pessoalidade. Esse excesso, fortemente ancorado em alguns poucos, distorce, profundamente, a questão do coletivo, pressuposto da política. Projetos pessoais acabam com a política e transformam-na em ação para projeção de alguns. E, num curto prazo, em fantásticos fracassos.

    Mais um ponto: os discursos. Só para pensar bem pertinho de nós: dá para lembrar os discursos de Sérgio Cabral em qualquer campanha ou evento de governo? Caramba, o melhor efeito cortina de fumaça. Depois daquilo, muitos saíam completamente convencidos de que tínhamos um paladino em luta pela população fluminense e pela ética e dignidade. Só não era bem isso, como tem sido muito bem comprovado por fatos.

    Precisamos nos concentrar, nestes difíceis tempos, no fato de que a realidade não está nos discursos ou nas narrativas, mas nas ações e na prática diária, na vida vivida e não na narrada. É de atos e ações que se fazem mudanças. É preciso grande atenção para separarmos a grandiloquência, ou nem tanta, e às vezes bem vulgar, da vida real, e das ações que recheiam a vida de cada um.

    E, para os partidos, está colocado um novo tempo também, longe dos recursos fáceis, das estrelas e celebridades, dos recursos fartos para poucos, e das manipulações de cúpulas que ignoram a vida das pessoas em suas cidades.

    Um novo tempo: abertura para participação, tecnologia para comunicação, aplicativos para participação efetiva, democracia, contraditório, conceitos. Quando assim falamos, parece sonho de idealistas. Afinal, vivemos no Brasil. Mas é aqui e agora que construímos o futuro. As condições criam as possibilidades. E as atuais talvez sejam as melhores para apontarmos o futuro que queremos. Afinal, é da crise que nascem as saídas. Parece bem brega apostar no futuro em tais condições. Mas sou brega. E idealista. E esperançosa. E lutadora. Talvez não desista nunca. Ou vá desistir um dia. Que não é hoje.

    Que tal nos propormos a derrotar os que só constroem projetos pessoais? E, pasmem, não são só os corruptos. Alguns os fazem por caminhos bem espertos. Até baseados no bem comum. Aliás, os corruptos, também o fazem. Precisamos identificá-los, combatê-los, mas, principalmente, construir outro projeto.

    Maduro se reinventa na Venezuela, porque há muitos que precisam de ilusões. Lula ainda tem espaço no Brasil, porque pessoas precisam de sonhos e a realidade os incomoda. Porque apresenta uma dura luta pela frente. Na verdade, a esperança trata de sonhos. Mas precisamos construí-los na vida real. Muito trabalho pela frente.

    Mas sempre há o que fazer. Cada um na sua função. Os partidos precisam tratar da sua. E superar-se. Ou morrer na praia. O momento é esse, difícil, controverso, meio exasperante, intensamente desesperador. Mas não há mais como dele fugir.

    A esperança trata de sonhos, por Lurdinha Henriques

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