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Que tal cultivar nossos jardins?, por Lurdinha Henriques

  • Seg, 19 de Março de 2018 23:25
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    O que nos restou foram trincheiras armadas e o fim do diálogo.

    A morte violenta de uma mulher combativa e que faz da militância sua forma de vida, deve nos indignar a todos/as. Deve, também, nos levar a diversas reflexões sobre os tempos que vivemos: o pouco valor da vida, o processo que nos trouxe até este momento e sobre muitas coisas que surgem em nossas cabeças, em associações com outros casos conhecidos. Deve, também, nos indignar. Pela violência, premeditação, pela negação de futuro para mulher com uma filha, pela tristeza da família e amigos e pela perda real de alguém que luta pela população mais desprotegida.

    Mas tivemos mais do que isso. Ao virar um símbolo, não da violência gratuita, mas da violência organizada, a vereadora Mariella sofreu outras violências ainda. Neste tempo de radicalização gratuita, de pouco conhecimento, mas muito xingamento, de ideias rasas apresentadas como grandes teses, de intolerância e violências de diversos tipos, ela atraiu para si os polos empobrecidos de humanidade. De um lado, a tentativa de levar teses cada vez mais radicalizadas para gerar movimento partidário, numa apropriação de imagem que, particularmente, me revolta. Uso de imagem de uma vítima para promoção não de ideias, mas de slogans com objetivos eleitorais. De outro, o mesmo movimento do polo oposto: criminalizar a vítima, inclusive de forma jocosa. Este movimento pareceu-me mais localizado, minoritário, mas não desimportante, se lembrarmos que temos eleições à porta e candidaturas que defendem violência e morte como solução.

    Que país é esse? Onde foi parar nossa alma alegre e receptiva? Será que jamais existiu? O que nos restou foram trincheiras armadas e o fim do diálogo, da solidariedade, da compaixão?

    Já passou da hora de refletir sobre nossas ações e seus resultados. Li hoje na Época um texto que falava de Cândido de Voltaire e de uma frase enigmática do conto: "Tudo isso está bem dito, mas devemos cultivar nossos jardins."

    Que tal cultivar nossos jardins?, por Lurdinha Henriques

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